MINHA HISTÓRIA NO MUNDO TK90X – DESAFIOS, DIVERSÃO E AMIGOS

(Jorge Braga da Silva)

OS SINAIS ESTAVAM LÁ

Sou mais velho do que o chip eletrônico. Não sei se isso é motivo para orgulho. Na verdade, não é mesmo. Entretanto isso é um fato porque nasci em 1957, numa choupana no meio de um pasto de uma fazenda, cercado de vacas por todos os lados.

Choupana
Era assim que morávamos em 1957, quando eu ainda engatinhava pelo chão de barro batido da choupana

Naquele mundo distante, no Pontal do Paranapanema, extremo oeste do estado de São Paulo, a vida era muito diferente. Quando minha mãe ainda me tinha no colo e me amamentava, nasceu o primeiro chip da história. E ele veio ao mundo das mãos de Jack Kilby, na Texas Instruments, em 1958. Robert Noyce, da Fairchild Semiconductor, independentemente, repetiu o feito em 1959. Então daria para dizer que o chip, talvez o artefato mais revolucionário da história humana, “foi dado à luz” duas vezes, mas minha mãe me deu à luz 1 ano antes.

Em 1964, contrariando os mais otimistas futurólogos, os carros voadores ainda não trafegavam pelos céus do primeiro mundo, muito menos “sob a luz do céu profundo”, mas Roberto Carlos “parava na contramão” com sucesso e ainda, no primeiro verso de “Parei na contramão”, confessava: “Vinha voando no meu carro”. Meu pai e minha mãe estavam cansados de viver na contramão, não num carro voador como Roberto Carlos, mas sim no cabo da enxada.

Então minha mãe convenceu meu pai e assim desembarcamos em Presidente Epitácio, uma pequena cidade, também no extremo oeste do estado de São Paulo, um pontinho quase apagado no mapa daquele pequeno mundo, no qual vivíamos nas distâncias, espreitando a vida em branco e preto nas telas das TVs, nas salas dos vizinhos.

E as TVs, essas sim, eram gigantes entrincheiradas em lugar de destaque, de onde começavam a bulir em nossas cabeças, trocando as ideias de lugar. Mas TV era coisa de privilegiado, de poucos que podiam ter uma. Nós não. Éramos apenas mais uma família pobre de lavradores migrantes que, na impossibilidade de ir para os grandes centros urbanos detentores das melhores oportunidades, fomos para onde deu, fugindo da vida sofrida no campo.

Fugimos dessas agruras campesinas por volta de junho ou julho de 1964. Aos 7,5 anos de idade, ainda não alfabetizado, cheguei à cidade e fiquei admirado no meu primeiro contato com um dispositivo tecnológico fascinante: água encanada, água saindo de um cano dentro da parede. Para mim era incrível! E isso ainda não era nada. Lá no centro da cidade tinha umas lamparinas, que eram umas pequenas garrafas de vidro, penduradas em postes nas ruas e também nos tetos das casas tudo interligado por fios metálicos. A noite acontecia a mágica e elas iluminavam a ruas e as residências! Era um mundo fascinante para um menino vindo da roça e que vivia, até então, entre os bichos da fazenda e os matos das cercanias.

Como a lamparina a querosene funcionava eu já sabia e até mesmo tinha uma ideia de como funcionava o rádio receptor Semp do meu pai. E vou contar para vocês: tinha uns homenzinhos escondidos lá dentro da caixa do rádio que falavam e cantavam músicas que nos acordavam bem cedo todo dia. Mas o que era aquilo que andava dentro dos fios e acendia as lâmpadas lá no lado rico da cidade? Fiquei intrigado tentando achar uma teoria para explicar o mistério. Eu não sabia o que era uma teoria, mas queria uma que me esclarecesse de onde vinha aquela luz mágica. Então inventei uma. Era o querosene que corria por pequenos canais dentro dos fios e queimava no interior das garrafinhas.

O COMPUTADOR NA SUA CASA

No ano seguinte, 1965, fui matriculado no então 3º Grupo Escolar de Presidente Epitácio. Tempos depois, já alfabetizado, descobri o mundo da leitura e também a Biblioteca Municipal de Presidente Epitácio. E creio que foi lá que lí o livro “Os computadores” de Alan Vorwald e Frank Clark, edição de 1964. No final desse livro havia o projeto DIY “Um computador em sua casa”. Nesse projeto, nenhum circuito integrado era usado, mesmo porque os chips microprocessadores ainda seriam inventados em 1971. O computador era à base de transistores e diodos. O teclado era um disco de telefone e a saída eram lâmpadas de filamento. Fiquei fascinado e queria construir um, mas havia os tais transistores e diodos. Como consegui-los? E o disco de telefone? Ah, e por falar em telefone, eu nunca via, nunca usei, só ouvia falar.

Figura do livro “Os computadores”, da Distribuidora Record (Rio de Janeiro) de 1964; no capítulo final, “Um computador em sua casa”.

EU SÓ PENSAVA NAQUILO ENQUANTO AS LAMPARINAS DAVAM O ÚLTIMO SUSPIRO

Em algum momento, a energia elétrica chegou à periferia de Presidente Epitácio, onde estávamos, trazendo o conforto da iluminação para a nossa velha casa de madeira e melhorando a qualidade de vida. Agora não mais respirávamos os fumos nem sentíamos o fedor do querosene queimado das lamparinas. E eu só pensava naquilo, naquilo que caminhava dentro dos fios, acendia as “lamparinas” elétricas e animava as telas das TVs. Enquanto não estava bem claro na minha cabeça como acontecia a mágica eu ia muitas vezes assistir TV branco e preto na janela de um vizinho bem de vida. Eu já estava alfabetizado e, desde então, me tornei um leitor voraz.

MAMÃE, OLHA, FIZ UMA INSTALAÇÃO ELÉTRICA!

A minha velha teoria do querosene circulando dentro dos fios há muito se mostrava inconsistente. Não explicava, por exemplo, porque precisava de dois fios chegarem até o dispositivo. Na nossa velha lamparina, agora abandonada em algum canto, um único pavio umedecido pelo querosene queimava ao ser aceso com um fósforo. E a lâmpada lá na rua, quem acendia? Mas já havia um bom tempo que eu tinha descoberto os tais elétrons e pude melhorar a teoria. Os elétrons vinham em sentidos contrários pelos fios e se chocavam dentro das lâmpadas com tanta força que produziam a luz. E essa teoria, bastante rude, foi a que apliquei na prática. Fiz a minha primeira instalação elétrica no meu quartinho de madeira. Minha mãe, que havia me incentivado, ficou aliviada quando, guardando certa distância segura, viu que funcionou e que nada explodiu ou pegou fogo. Então continuei nessa teoria até o dia em que foi necessário aperfeiçoá-la.

O PRIMEIRO MICROPROCESSADOR A GENTE NUNCA ESQUECE

"Have You Ever Seen the Rain?" do Creedence Clearwater Revival, era sucesso nas rádios também do oeste paulista em 1971, e longe, muito longe dali, Federico Faggin, Ted Hoff, Stanley Mazor e equipe inventavam o primeiro chip microprocessador, o Intel 4004, o primeiro microprocessador comercial do mundo.

Não havia com quem eu pudesse trocar informações, compartilhar experiências e ideias, nesse campo. Com os outros meninos, as temáticas das conversas tinham que ser outras, pois percebi a falta de interesse deles nessas coisas. E dos adultos também, exceto o já falecido Jacinto Munhoz Carretero, um espanhol, dono de uma pequena oficina de eletrônica, a Eletrônica Proton, que se tornou meu amigo e me ensinou muito sobre eletricidade e eletrônica. Minha primeira montagem eletrônica foi um rádio galena cuja teoria o Dr. Jacinto, como eu o chamava, me ensinou no balcão do bar que pertencia ao meu pai. Graças a essa mentoria, foi uma época boa. Lembro do telefone que eu fiz com duas caixinhas de papelão, grafites de lápis, pilhas e fios. E também um motor elétrico. O rotor foi feito com tiras metálicas tiradas de engradados de bebidas, fios de motor, imãs e pregos. Funcionou para minha alegria.

Esse motor rudimentar foi aplicado, algum tempo depois, num projeto de artes manuais que havia no Colégio Estadual de Presidente Epitácio. E o projeto era um navio em miniatura, que fiz todo de lata, baseado em desenhos técnicos que achei em papeis abandonados na rua, próximo à Capitania dos Portos. O pequeno navio fez sua primeira e última navegação num tanque do pátio do colégio, numa demonstração para o professor e os alunos da classe. Depois o recolhi rapidamente, antes que afundasse, pois fazia muita água pelo furo do eixo da hélice, esta também feita por mim. O que importa é que minha nota foi 10 e fiquei famoso pelas minhas habilidades MacGyver e Professor Pardal.

Para ser justo, não posso esquecer do Élvio. Ele era um pouco mais velho e era muito inteligente e habilidoso. Construía muitas geringonças elétricas ou mecânicas. Por isso eu não saia da casa dele que ficava a uns três ou quatro quarteirões de distância da minha. Se alguém podia me ensinar algo sobre essas coisas, eu ficava colado.

Na cidade, acho que não tinha sequer uma banca de jornal, mas, nessa época, eu já comprava a revista Saber Eletrônica na única livraria da cidade. Deve ter sido numa delas que li sobre os circuitos integrados e também sobre a aplicação deles em computadores. Formei uma vaga ideia sobre o assunto e segui em frente.

VAMOS CALCULAR TUDO

Era 1972. Em ritmo crescente, as novas tecnologias surgiam transformando o mundo, até mesmo lá nos confins do oeste paulista. A escala de integração dos circuitos integrados seguia firme na lei de Gordon Moore, o cofundador da Intel. Elis Regina cantava “Águas de Março” nos rádios transistorizados e John Lennon, em “Imagine”, mexia com as ideias mais libertárias da nossa imaginação. Os sonhos vinham pelos ares, modulados em AM / FM, nas ondas eletromagnéticas e se apoderavam de nossos neurônios. A HP-35, lançada pela Hewlett-Packard em 1972, foi a primeira calculadora científica portátil , mas foi outra calculadora que, alguns anos depois, me despertou e me abriu portas para o mundo novo que se descortinava no alvoroço da chegada dos primeiros computadores pessoais no mercado brasileiro. No ano seguinte, tudo mudou em minha vida. Fui estudar em Guaratinguetá, uma cidade a cerca de 200 quilômetros da capital de São Paulo.

O QUE É REAL, MEU QUERIDO Z80?

O sucesso de 1976, "Bohemian Rhapsody", da Banda Queen, começa com estes versos: “Isso é a vida real? / Isso é apenas fantasia? / Preso em um deslizamento / Não há como escapar da realidade” . Eles parecem bem premonitórios sobre o que estamos vivenciando na atualidade. 1976 foi o ano de lançamento comercial do mais popular dos microprocessadores que também foi criado por Federico Faggin, dessa vez em parceria com Masatoshi Shima. Aquele pequeno pedaço de plástico preto, com suas 40 perninhas metálicas, era um dos precursores de uma revolução como nenhuma outra antes na história: a revolução da informação onipresente que, décadas de evolução depois, possibilitaria as façanhas da computação gráfica, realidade virtual, realidade aumentada, inteligência artificial, internet e muitas outras tecnologias. Porém, com a onipresença veio o excesso. O problema, hoje, não é falta de informações, é distinguir o que é real do que não é, o que é verdade e o que não é. A realidade é ouro que precisa ser garimpado até as profundezas na imensidade das informações, pois o que superficialmente parece ouro, de repente pode ser, na verdade, ouro de tolo.

DA CALCULADORA DE MÃO AO COMPUTADOR PESSOAL

Em 1979, menos de 1 ano antes da revista Byte anunciar que “a era dos computadores pessoais prontos para uso chegou” eu frequentava o curso de projetos de máquinas e ferramentas, no SENAI de Guarulhos - SP. Por sugestão de um dos professores, comprei uma calculadora programável da Dismac esperando usá-la para os cálculos. Na verdade, meu interesse por esta calculadora foi mais a palavra programável enfatizada pelo professor. Com essa calculadora, que cabia na palma da mão, adquiri os primeiros princípios de programação e percebi o sempre escasso recurso de memórias nos equipamentos.

Dois anos depois, em 1981, a “profecia” da revista Byte se materializa no Brasil com a venda em lojas, pela primeira vez, de um computador pessoal . E eu estava lá, diante da vitrine do antigo Mappin, na Praça Ramos, em São Paulo, admirando o Dismac D-8000, um digno representante da linhagem TRS80. Eu vi, mas não comprei, não levei. Fiquei ali babando como se fosse um cachorro namorando o frango assado pela janelinha de vidro da assadeira. Era muito caro, ou melhor, não era caro. Eu é que não tinha dinheiro para comprar. Mas quando este fato aconteceu, eu já andava de namorinhos com os kits do Nestor e do NE-Z80, na revista Nova Eletrônica, e outros, como o NE-Z8000, que já apareciam em seus anúncios e artigos. Os kits eram mais acessíveis, mas não muito encontráveis. Quero dizer, era preciso o usuário montar o kit e isso exigia alguns conhecimentos e técnicas de trabalho em circuitos de eletrônica digital que ainda não eram populares naquela época. Temendo uma sobrecarga no SAC da Prológica para atender os usuários em dificuldades com a montagem, o NE-Z80 nunca foi vendido em forma de kit , mas sim comercializado pronto nas lojas. Eu morava em Curitiba, estado do Paraná, e um amigo me mostrou um NE-Z8000 que ele tinha. Fiquei encantado, é claro. Mas o amigo nem me deixou tocar na maquininha e nunca cumpriu a promessa de emprestá-lo a mim por um tempo.

O GRUPO DA BRÁS LEME

"Every Breath You Take", na voz de Sting, se ouvia nas rádios em 1983. Neste ano eu já morava em São Paulo, na Avenida Braz Leme, em Santana. Os computadores, eu os estudei a fundo nos dois anos em Curitiba. Interessei-me pelo hardware e os dissequei mentalmente até a menor das “vísceras”. Mas ainda não tinha nenhum deles em minhas mãos. E a canção do The Police, sucesso do momento, dizia algo que se encaixava na minha relação com os computadores pessoais: “… E cada movimento que você fizer / … / Cada passo que você der / Eu estarei te observando / … / Cada jogo que você jogar / … / Eu estarei te observando” . Para mim, era só ficar na observação, comprar um computador pessoal era muita areia para o meu caminhãozinho. Mas tudo mudou algum tempo depois quando consegui comprar um CP-200 da Prológica. Era um clone melhorado do ZX81, da linha Sinclair. E aí aprendi a programar em linguagem de máquina. Abri o micro, dessoldei chips e os coloquei de volta em soquetes. Um livro sobre o qual me debrucei por muitas horas foi o “Linguagem de Máquina para o TK” de Flavio Rossini. Foi pura diversão naquela época. Era gratificante ver os códigos digitados em linguagem de máquina tomarem vida na tela. Ou não.

Sobre o CP-200, nunca vou esquecer um evento notável. Pode ter sido em 1984 ou 1985, quando viajei para a minha longínqua Presidente Epitácio. Reencontrei amigos como meu antigo professor de matemática do colégio, o professor Hermes. Então conversamos e, a certa altura, surgiu o assunto dos computadores e do CP-200. Ele ficou surpreso que eu tivesse um computador e imediatamente propôs um encontro na casa dos meus pais, onde eu estava hospedado. Nesse encontro ele levaria um grupo de alunos que ele sabia serem os mais interessados. A ideia era apresentar a eles o computador. E isso realmente aconteceu e ficaram todos encantados, porque os computadores para eles, até aquele momento, eram apenas coisa de cinema e televisão. Todos os alunos e alunas brincaram com o CP-200, aprenderam algumas coisas e foi uma tarde realmente agradável e proveitosa. Foi uma espécie de avant-première do que se tornaria muito comum acontecer, alguns anos depois, na movimentação na minha residência que eu chamaria o “Grupo da Braz Leme”, que não era um grupo formal. Os encontros que aconteceram foram espontâneos, nada era programado e ninguém citava isso tudo pela denominação “Grupo da Braz Leme”. Aqui faço uso dela apenas para colocar os eventos num contexto melhor identificado.

Nessa época eu tive o Exato Pro, um clone de Apple II+, da CCE. Também tive outros clones de Apple II+ e cheguei a desenvolver, mas apenas para meu uso pessoal e estudos, uma interface de entrada e saída paralela programável, para o Apple, usando o CI 8255. Com o TK90X eu tive o primeiro contato, se não me engano na antiga Feira Internacional de Informática que acontecia no Anhembi, na zona norte de São Paulo. De imediato eu gostei muito daquele computador. Acho que tive mais de dez computadores TK90X e consertei inúmeros outros para os clientes que surgiram assim que souberam de mim. Foi numa dessas que conheci o Ricardo Suzuki. Na época formou-se naturalmente o Grupo da Braz Leme, nos moldes que expliquei acima, que era pequeno comparado ao número de clientes em geral, para conversarmos sobre os computadores pessoais, os quais se diversificavam em várias linhas ou famílias.

No Brasil, essas linhas se distribuíam entre Apple, Sinclair, TRS, MSX, Amiga e IBM PC. Todas elas incompatíveis entre si, ou seja, o programa que rodava em uma normalmente não rodava diretamente em outra. Dá para imaginar a disputa pela hegemonia do mercado que cada linha travava o tempo todo. Era uma espécie de seleção das espécies darwiniana acontecendo na tecnologia dos computadores pessoais no mundo inteiro. Foi uma época emocionante e efervescente de criatividade, invenção e inovação. E o mais legal disso tudo é que se podia ver naquele mar, disputando um pedacinho do mercado, desde a mínima sardinha até o poderoso tubarão. E as vezes uma sardinha conseguia superar os tubarões, trabalhando no meio de tranqueiras numa garagem qualquer, de algum lugar do mundo. Exemplo? A Apple Computer, nos Estados Unidos. Mas “deixando a profundidade de lado”, como diria Belchior (que aliás andou por terras uruguaias onde o TK90X também floresceu) voltemos ao nosso amigo Suzuki.

JorBS e SZK
Jorge Braga e Ricardo Suzuki no encontro MSX em Jaú, em 1999

NASCE A SYNCHRON NO EMBALO DO SOM DA EXPLORER

Um dos primeiros do Grupo da Braz Leme foi o Suzuki. Certo dia ele apareceu trazendo uma caixinha de plástico preto que era o PSG do TK85. Era uma interface de som com o PSG AY-3-8912, fabricado pela Microdigital. Ela podia ser implementada pelo usuário diretamente na placa do TK85, que já vinha da fábrica com espaço reservado para a inserção dos componentes relativos ao som, ou podia ser feita a conexão da interface, já montada, no barramento de expansão do TK85, como era o caso dessa que o Suzuki trouxe. Essa interface para o TK85 da Microdigital foi baseada na ZonX-81 da empresa inglesa Bi-Pak .

A grande sacada do Suzuki foi perceber que apenas com poucas modificações nas linhas de endereçamento da interface, de modo que ela a decodificar as portas de som do ZX Spectrum128, o TK90X poderia receber aquela interface no seu conector de expansões e aproveitar uma grande quantidade de games que tinham o som do PSG e podiam rodar num micro 48K.

E era isso que o Suzuki tinha feito. Mas, quando ele conectou o PSG modificado no TK90X, o som produzido era muito ruim. Como ele não conseguiu resolver esse problema, me trouxe a interface para que eu visse o que podia ser feito. Depois de alguns dias, o Suzuki retornou e eu a mostrei a ele funcionando com ótimo som.

Rodamos vários jogos com som, como o Tetris 2, por exemplo. Foi muito incrível a nossa alegria naquela ocasião. Foi o Suzuki também que deu a ideia de comercializar com o nome Explorer. Concordamos e daí, logo depois, nasceu também a Synchron. Eu cuidei da parte do hardware da Explorer e o Suzuki produziu o manual que a acompanhava. A Explorer foi criada por nós e foi um sucesso. Muitos tinham um TK90X ou um TK95 e havia até quem tivesse um ZX Spectrum48. Existiam muitos jogos com o som do PSG que podiam rodar no TK90X, mas sem o som por falta simplesmente de um PSG. Como ninguém pensou em criar uma interface de som para ele? A interface de som PSG para o TK85 era legal, mas a história mostrou que só ter o hardware, mesmo o melhor, não tem futuro se não puder contar com uma boa base de software para aproveitá-lo.

Acima, a Explorer, a interface de som com o PSG AY-3-8912, o primeiro produto da Synchron, desenvolvido e colocado à venda em 1990 . (Foto de Clovis Friolani) Folheto de divulgação da IDS91, de 1991, citando a Explorer, lançada em 1990. Observa-se na coluna da direita do anúncio, em baixo, a prévia do lançamento do kit 128 que, depois, acabou noTK128, como veremos adiante.

FIGURA 4

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FIGURA 5

A produção da Explorer era lá mesmo na Braz Leme. A Elaine, minha esposa fazia as compras de componentes na Santa Ifigênia, a famosa rua da eletrônica de São Paulo, quando havia muitos pedidos e eu tinha que ficar preparando os cartuchos para a inserção das placas. Outras vezes ela mesma soldava os componentes, além de ser a secretária e a tesoureira.

Abaixo, a bancada onde a Explorer foi desenhada e onde eram montadas e testadas as interfaces para atender os pedidos dos clientes.

FIGURA 6

Bancada de projetos, montagem e testes da Synchron. A menininha sorridente é a minha filha com cerca de 5 anos.

A Synchron era empresa registrada em nome da Elaine e de um grande amigo, o mestre Nascimbeni, e teve também uma loja de produtos de informática que funcionou por algum tempo na Avenida Cruzeiro do Sul, em Santana, na Zona Norte de São Paulo.

Da época do Grupo da Braz Leme, marcaram presença: o Suzuki, que foi, como já disse antes, quem deu o chute inicial na bola; o Nascimbeni, que toda hora aparecia com uma novidade da Inglaterra; O Antonio S. Neto, grande amigo, fã do Amiga; o Fabio Schmidt; o Roberto Radec, muito interessado em programação e que, incentivado por nossas conversas sobre como funcionava o TK90X e sua geração de vídeo, estudou computação gráfica e tempos depois foi trabalhar no exterior, na área de efeitos cinematográficos, (Por exemplo, os efeitos de água e fogo do filme Poseidon, de 2006, que era um remake do clássico de 1972, O destino do Poseidon); e muitos outros.

O Ricardo Skandar, da Rede Soft, apesar de comparecer frequentemente, vinha receber algum lote de interfaces, hegava e saia rapidamente. Tiveram breve, mas marcantes passagens: Lelo de Guarulhos, Quen Woo Moo e mais alguns.

Também recebi as gratas visitas de Ademir Carchano, Clovis Friolani, Eduardo Luccas, Garret, Daniel Ravazzi e muitos outros que ainda estão ativos até hoje nesse mundo dos computadores e videogames clássicos.

Tive um ou outro contato do exterior e de várias regiões do Brasil. Falei por telefone, com o Rodolfo Guerra, do Uruguay e autor deste livro. Troquei correspondência com pessoas diversas de outros estados, como o Wilson Butzke, Rogério, Leão Ampessan, Carbajal e Marcelo, todos de Santa Catarina. E o mais legal foi que me mandaram fotos deles juntos num churrasco. Essas fotos estão comigo até hoje, em algum dos meus álbuns.

E claro, eu esqueci vários nomes, me perdoem, atribuam a minha falha aos parcos 16 KB dos meus velhos neurônios.

O MESTRE NASCIMBENI

Ao mestre Nascimbeni (acho que foi o Suzuki que o apresentou a mim), sou grato até hoje porque ele trazia muitas novidades e apresentava ao grupo. Coisas que ele comprava da Inglaterra. Por exemplo a Video Vault, uma interface que era um módulo de atualização para o ZX Spectrum, lançado em 1989 pela Video Vault Ltd. Ela transformava o modelo ZX Spectrum de 48K em uma máquina de 128K, oferecendo som direto na TV, botão de reset, interface paralela para impressoras e interface Kempston para joystick. E ele trouxe muito outros produtos (Que nós só conhecíamos de revistas importadas e algumas nacionais), como o Sinclair QL e uma coleção de cerca de oito ZX Spectrum48, todos com Interface 1 e suas respectivas microdrives.

Um traço da personalidade do Nascimbeni, que me recordo muito bem, é que ele não se furtava de me deixar mexer nas entranhas dos brinquedinhos novinhos que tinha acabado de comprar. Então acabei desmontando muita coisa dele e inda bem que depois de remontadas todas continuaram funcionando.

Este foi o caso da interface de comunicação, que foi baseada em uma interface dele, uma MID 95 da Mecânica Industrial e Digital Ltda. Ela tinha como principal função conectar o TK ao sistema de Videotexto, uma rede de informações inaugurada pela Telesp em 1982. Com essa interface era possível até enviar mensagens. E para minha surpresa, a Elaine conseguiu se conectar a outro usuário, que estava, nada mais nada menos, do que no Canadá, era o que ele dizia, embora o serviço fosse limitado ao territótio nacional. A conexão foi muito instável e logo caiu. A MID95 já não era mais comercializada, mas o Nascimbeni queria mais algumas, então o objetivo da Synchron, ao fabricar algumas unidades, foi apenas atender o amigo Nascimbeni.

FIGURA 7

Interface de comunicação. No topo da placa, o adesivo informa data de fabricação 22 de setembro de 1990. Poucas unidades foram produzidas dessa interface, visto que não havia intenção comercial. Mesmo sendo muito rara, apareceu um exemplar no 3º Encontro do Clube TK90X, em 2005. Em 2003, o serviço de videotexto foi encerrado .

UMA INTERFACE DE DRIVE PARA MEU TK CHAMAR DE MINHA

Em 1991, já havia 1 ano que a Explorer fora lançada. Como dizia o folheto, tirado nossos TKs do silêncio injustificável em que estavam. A Explorer elevou a experiência de jogar ao fascinante mundo da música no computador. E no mundo humano da música, estava no ar pelas ondas do rádio "Codinome Beija-Flor", de Luiz Melodia.

Música é essencial na nossa vida, mas um computador também precisa de outros dados, muitos dados e rápido. Carregar programas pelo gravador de fitas não era prático, muito menos rápido. Então os usuários desejavam um recurso que saciasse a fome crescente por bytes dos novos jogos e que fossem carregados com mais velocidade, de modo simples e prático. Eu era um desses usuários e já havia muito tempo que procurava uma interface de drive para o meu TK90X. O alto preço não ajudava e a dificuldade de encontrar o produto, atrapalhava. Na época, já havia uns três anos que a CBI deixara de produzir a sua interface de drive, mas foi exatamente uma CBI95 que acabei comprando de alguém. Considerei isso um grande achado. Eu pensei: “Agora meus problemas acabaram-se”. Ledo engano, foi quando eles começaram. Quem quer interface de drive, quer drive. E eu não tinha nenhum. Outro item também de alto custo para um usuário comum da época. Por fim, depois de gastar muita sola de sapato pela Santa Ifigênia, consegui um enorme drive que comprei como sucata. Era um trambolho antigo, um 5 ¼”, com o dobro da altura dos drives slim que já estavam no mercado, mas funcionou satisfatoriamente na CBI, apesar de muito barulhento.

Assim que comecei a usar a CBI95, percebi um problema recorrente de mal contato. A interface foi montada em duas placas de circuito impresso sobrepostas, interconectadas por uma barra de pinos próxima de uma das laterais, o que as deixava muito instáveis dentro da caixa. Quando um programa estava sendo carregado, não era incomum o mal contato acabar interrompendo o processo. A caixa metálica de aço era um risco constante de curto circuito e era muito pesada. Tive que fazer vários retrabalhos nas soldas e tentei estabilizar melhor as PCIs, mas o problema intermitente de mal contato não desaparecia totalmente. Vi que o sistema de duas placas foi mal executado, então resolvi reconstruir a interface, mas “condensando” tudo em uma só placa de circuito impresso. Aspas no condensando porque, na verdade, era uma enorme placa com cerca de 11 x 19 cm!

A primeira tentativa foi um fracasso. Produzi uma interface artesanal de placa única, cujo circuito impresso eu desenhei à mão, que ficava dentro de uma caixa de fita videocassete. Era uma placa dupla face, mas como o processo de fabricação era caseiro, não havia como fazer furos metalizados. Dezenas de jumpers foram soldados entre as duas faces. O resultado foi mais problemas do que os da CBI95, na qual o projeto se baseava. Além disso aquela caixa era horrível. As matrizes eram em silkscreen e, apesar de a trama das telas ser de alta densidade, depois da corrosão muitas trilhas ficaram em curto circuito ou interrompidas, o que teve que ser corrigido à mão, uma por uma.

Percebi que fabricar uma PCI artesanal era inviável. Entrei em contato com um fabricante de circuitos impressos, acho que na região do Ipiranga em São Paulo, e ele me orientou a desenhar a interface em acetato transparente, usando fitinhas adesivas. Essas fitas vinham em várias bitolas de largura e a interface deveria ser desenhada com o dobro do tamanho final da placa. E foi assim que semanas depois eu tinha os acetatos com as duas faces desenhadas em tamanho A4.

Jorge Braga na bancada da Synchron, em 1991, desenhando a placa de circuito impresso da IDS91. As trilhas das duas faces foram todas desenhadas à lápis em folhas de papel sulfite A4 e depois transferidas para acetatos transparentes sobrepostos, usando fitas coladas uma a uma. O processo industrial reduziria a PCI produzida para o tamanho que coubesse no interior da caixa plástica da Patola PB114/2 … …………………… ….

FIGURA 8

FIGURA 9

Na realidade, se antes a ideia era produzir uma única interface caseira para meu uso, o que acabou não dando nada certo, só me sobrou a opção da produção industrial das PCIs. Não poderia ser uma produção muito grande, apenas o mínimo que o fabricante aceitasse produzir. Desse pequeno lote, algumas PCIs eu manteria comigo e as restante seriam montadas as IDS que seriam vendidas para cobrir os custos de produção e ainda ter uma margem para investir em outros projetos cogitados na época, como, por exemplo, o TK128, que me parecia possível e já há algum tempo eu queria construir um protótipo. Acho que o lote inicial da IDS91 foi de umas 50 ou 100 unidades de placas, não lembro muito bem.

FIGURA 10

IDS91, a interface de drive da Synchron (1991). Alguns pré-requisitos de projeto era que a interface deveria ser de uma única placa a ser conectada em pé e não deitada como na maioria das outras Betas compatíveis

FIGURA 11

Vista posterior da IDS91, sem a tampa traseira. Embaixo, à direita, o silkscreen mostra o ano de fabricação (1991). Em razão da premissa de que todo o circuito deveria ocupar apenas uma pequena placa, foi necessário que o CI 7805 ficasse flutuando com o dissipador preso nele.

Mas, contrariando minhas expectativas, houve um número maior de pedidos do que eu esperava. Era uma demanda que estava reprimida, talvez porque na época não houvesse mais ninguém produzindo as outra Betas compatíveis no Brasil.

FIGURA 12

A partir de algum momento, comecei a rotular as interfaces produzidas. A IDS91 da foto á esquerda informa a data de fabricação de 27 de outubro de 1991 e o número de ordem 033, no rótulo colado na face inferior.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO: JUNTOS NUM FOLHETO DA SYNCHRON

No folheto que anunciava a IDS91, visto anteriormente, a Explorer é mencionada no passado porque já estava no mercado há 1 ano, enquanto a IDS91 acabava de chegar, e representava aquele momento presente. A palavra “aguarde”, naquele anúncio, sugeria que algo chamado Kit 128 que estaria para chegar num futuro indeterminado. Mas, naquele momento, na bancada da Synchron, o que viria a ser chamado de TK128, estava num estágio de desenvolvimento um pouco além do embrionário, mas pelos testes já realizados, daquele “feto” nasceria uma criança perfeita.

COMO FAZER UM TK128 NA DÉCADA DE 1990

E de fato, existiu um protótipo funcional do TK128, mas nenhum ZX Spectrum128 foi desmontado para análise da sua arquitetura e funcionamento. O protótipo foi construído tratando o ZX Spectrum128 como uma caixa preta. Ou seja, o protótipo evoluía conforme se obtinham informações sobre as entradas e saídas da máquina, obtidas de diversas ontes como esquemas elétricos, manuais disponíveis, folhetos e outras informações esparsas. Parte das informações eram obtidas na antiga livraria Litec, na Santa Ifigênia, no centro antigo de São Paulo. Havia nela uma seção de engenharia muito boa. Comprei muitos livros nessa loja, a maioria em inglês, mas havia muita coisa também em spanhol e italiano. Estas informações foram sendo aplicadas ao projeto e implementadas no protótipo. Em seguida, testes eram efetuados no protótipo e os resultados acareados com os dados que se obtinham de um ZX Spectrum128 real. Se estivessem conforme, o projeto avançava para o passo seguinte.

A maior dificuldade desse projeto de clonagem estava na presença de um famoso circuito integrado conhecido por ULA (Uncommitted Logic Array). Ele é que continha toda a lógica que fazia um 128 ser um 128. Nele é que estavam gravados os circuitos que interligavam as portas para configurar os bancos de memória. Ter um esquema do circuito elétrico do ZX Spectrum128 seria bom (eu não lembro de nenhum que eu tivesse naquela época), mas o pulo do gato estava lá dentro da ULA. Não tendo recursos para “abrir” a ULA, só me restou usar a imaginação. Na verdade, para chegarmos a um 128, só faltava realmente implementar um circuito lógico para chavear corretamente as memórias, porque, na parte de som, já havia a Explorer.

Depois de muitos testes, tentativas e erros, obtive o primeiro protótipo que era um T90X montado sobre uma base tosca de madeira, atrelado a uma placa de protótipo externa pelo conector de expansão da motherboard. Na placa do TK, algumas trilhas foram cortadas e outras conectas por longos jumpers de fio de wire-wrap diretamente à placa de protótipo, e esta continha muitos circuitos lógicos integrados conectados em soquetes wire-wrap e uma massaroca de fios interconectando os pinos. Algumas pessoas viram este protótipo funcionando, mas só meu irmão Bil (do Club Old Bits) e o Suzuki me vêm a lembrança agora.

O ÓTIMO É INIMIGO DO BOM

Tocava nas rádios o sucesso de Cidade Negra “Onde você Mora?”. Eu ainda morava na Braz Leme e foi em uma das minhas viagens a Presidente Epitácio, provavelmente em 1994, que mostrei o protótipo do TK128 ao Bil. Tudo funcionava corretamente, me parecia, mas foi somente em um teste com algum jogo do ZX Spectrum128, que o Suzuki percebeu um problema com a segunda tela de vídeo que era acessada por meio de um recurso chamado "Screen Paging". Esse recurso permitia alternar entre duas áreas de memória de vídeo, conhecidas como Screen 0 e Screen 1. Isso era feito ajustando-se o valor de um registrador específico no chip ULA, que controlava o hardware de vídeo, mas este recurso estava faltando no protótipo. Feita a correção do problema, ficou tudo certo. Os programadores poderiam usá-lo para criar efeitos visuais avançados, como animações suaves ou transições entre telas, sem a necessidade de apagar e redesenhar a tela inteira. Era uma técnica poderosa para a época, especialmente em jogos e aplicativos gráficos.

Percebi que, basicamente acrescentando-se a interface de drive ao 128, ele se tornaria um +3. O TK128 já era bom, mas achei que o ótimo seria melhor. E seria, se tivesse sido posto no mercado. Eu queria superar as expectativas. Então enveredei pelo projeto do +3, evoluindo do protótipo do 128 que já era funcional. Em consequência, o lançamento foi sendo postergado até que acabou numa gaveta da bancada por vários anos.

SOZINHO UM ENTUSIASTA NÃO É NADA

O grupo da Braz Leme se dispersou e com isso também o entusiasmo e a motivação arrefeceram. A estratégia de pular uma etapa e lançar direto um +3, não foi muito boa. Mas fabricar um +3 tinha seus desafios próprios. A interface de drive foi um fator adverso devido a certa dificuldade de se obter o FDC765 (Controlador de disquete) e o SED9420 (Separador de dados de disquete). Talvez a conjunção desses fatores, dispersão do grupo, estratégia errada, dificuldade de componentes, e outros mais, é que o projeto acabou no esquecimento.

PEDRA QUE MUITO ROLA

Outro fator que certamente contribuiu para minar o esforço no projeto TK128, e de outros, foram as frequentes mudanças para outras cidades. Em 1995 eu já estava morando em Guarulhos e menos de cinco anos depois fui transferido para Manaus, capital do estado do Amazonas. Em 2003, três anos depois, voltei a morar em Presidente Epitácio e em 2004 já estava morando Peruíbe, no litoral sul do estado de São Paulo. E ainda fiz uma mudança de um bairro para outro. Todas essas mudanças foram exigências do meu trabalho e este era minha prioridade. Enfim, um conjunto de fatores de diferentes naturezas interferiram no andamento dos projetos da Synchron. Inclusive a demanda intermitente pelos produtos. Mesmo assim, a interface de drive voltou a ser produzida em 2003.

A IDS2001ne: HOUVE UMA IDS2001?

O mundo estava mais insano do que sempre, em 2003 e "Crazy in Love", da Beyoncé, tocava loucamente nas ondas musicais daquele ano. Conforme já dito, foi justamente nesse ano que passei a morar em Peruíbe, cidade da eterna juventude. Logo no primeiro verso, Beyoncé afirmava “… Está tão louco agora”. Acho que ela estava certa e eu tinha sido contaminado pela doidera geral, porque não me lembro se houve ou não a produção de uma IDS2001. E se houve, qual teria sido a razão dessa denominação, já que em 2001 não havia, da minha parte, a menor possibilidade de fabricá-la. Eu estava numa louca correria em Manaus, no Amazonas, e lá permaneci até o primeiro trimestre de 2003.

Já quanto a IDS2001ne, não há dúvida ao ano de lançamento. Os manuais estão disponíveis na internet e o ano é 2005. O “ne”, tenho quase certeza, refere-se a “nova edição”. Não foi um termo muito adequado, porque edição, no sentido de repetição de um evento, é a 8ª acepção do termo editar, no Aulete Digital . Mas se era uma nova edição então deveria ter existido uma edição anterior, provavelmente uma IDS2001. Eu não lembro. Enfim, é uma loucura! O fato é que só encontrei fotos e referências, até agora, sobre a IDS2001ne. Então vamos nela.

Um problema do conector de expansão da linha Sinclair é sua maior suscetibilidade a mal contato. A IDS2001ne foi projetada para minorar este problema. A interposição de um flat cable entre a interface e o computador ajudava a reduzir o efeito de vibrações sobre o equipamento. A interface foi reorientada para a posição deitada, ficando apoiada sobre pés de borracha para ter mais estabilidade sobre a mesa.

Um detalhe no conector traseiro da interface nos remete novamente à saga do TK128. Na página 24 do manual descreve-se 7 pinos que seriam usados pelo TK128. Adiante abordaremos sobre o protótipo do TK128 e voltaremos a esse tema dos pinos do barramento de expansão do TK90X e a adaptação para o TK128. Aqui cabe mais dizer que a IDS2001ne foi projetada para ser sempre o primeiro dispositivo conectado ao barramento do TK para que assim filtrasse e acrescentasse sinais que seriam necessários à expansão futura do TK90X para TK128, de tal modo que não seria necessário alterar nada, ou muito pouco, na placa do TK90X, preservando-se ao máximo a sua originalidade.

FIGURA 13

Interface de drive IDS2001ne, da Synchron, lançada em 2005

TK128, DESSA VEZ UMA REALIDADE. OU QUASE

Quem é vivo sempre aparece, dizem. E eis que o TK128 não estava morto; mais de 10 anos depois daquela menção no folheto da IDS91, reapareceu. No Terceiro Encontro do Clube TK90X, realizado em 2005, apresentei o protótipo do TK128. Era um trambolhão de três placas de circuito impresso e uma massaroca de fios wire-wrap, sustentadas, uma acima da outra, por parafusos. Esse conjunto de placas apoiado sobre uma base de madeira ao lado de outra estrutura abrigando dois disc drives. Um deles rodava o sistema Beta e outro o sistema +3. À frente de tudo, um TK90X.

FIGURA 14

Protótipo do TK128 no Terceiro Encontro do Clube TK90X, em 2005. A) Placa base contendo os circuitos de mapeamento de memória, de interface de drive do sistema +3 e de som PSG AY-3-8912. B) Placa intermediária, controladora de drive Beta. C) Placa provisória, apenas para experimentos. D) Dois disc drives, um Beta e um +3. No notebook roda o mesmo jogo que no TK128 e, neste, o jogo estava travado. Coisas dos inevitáveis mal contatos por causa da macarronada de fios, como diria o Branco, do canal Oldplayers .

Voltando ao tema dos pinos do barramento do TK90X e a expansão para TK128. Para o funcionamento da expansão que transformaria o TK90X num TK128, algumas pequenas cirurgias seriam necessárias na placa original do TK90X e também a soldagem de alguns jumpers de fio da placa dele até a placa da expansão. Esses jumpers de fio poderiam estar num flat cable que sobrevoaria a placa original, sairia pela abertura do barramento de expansão no gabinete e adentraria à caixa da expansão para complementar a interconexão TK90X/TK128. Ocorre que o barramento do TK90X tem 4 pinos não conectados que poderiam ser usados para eliminar boa parte do flat cable “voador”. Um ou dois fios que sobraram do flat cable foram repassados para alguns outros pinos praticamente em desuso no TK90X. Ocorre que um desse pinos, o pino 16 (que recebeu o novo sinal LCK17), não era usado no TK90X, mas era no ZX Spectrum48 para o sinal Y. E para o pessoal que utilizava o ZX Spectrum, que constituía a minoria, isto acabou se tornando um problema quando tentaram conectar a IDS2001ne. Como não houve a produção do TK128, todas essas modificações poderiam ser desfeitas sem problema algum. E o Eduardo Luccas resolveu este problema tendo publicado um ótimo tutorial numa página do seu site .

A SOUNDFACE 1

No 4º Encontro do Clube TK90X, em 2007, foi apresentado o protótipo wire-wrap de uma interface denominada SoundFace 1. E o nome já sinalizava o que ela seria: apenas uma placa incorporando a Explorer e a Multiface 1. E assim como o TK128, esta também ficou apenas no protótipo.

FIGURA 15

Protótipo da SoundFace1 apresentado no 4º Encontro do Clube TK90X, em 2007. Agregava os circuitos da Explorer e da Multiface 1 numa única placa.

AS SOBREVIVENTES: INTERFACES LONGEVAS E O LEGADO TK128

Há sobreviventes. Por exemplo, a Explorer sobrevive hoje nas formas evoluídas dadas a ela por diversas produções de terceiros, como a que foi produzida, ou ainda é, pelo Victor Trucco .

Outro exemplo se traduz, em máxima expressão, nas palavras do Victor: “Peço licença agora ao Braga para usar o antigo nome do projeto dele e apresento a minha versão do TK128” . Está mais do que licenciado e ainda agradeço pela honraria. Graças a isso, o TK128, se pudesse, talvez iria dizer: “Ainda estou aqui”.

Outra grande sobrevivente é a interface de drive. Sobre a IDS2001ne você poderá ler, ainda no mesmo site do Victor, o seguinte: “Tentei contato com o Braga durante várias semanas para tentar fechar o lote com ele, porque o número de interessados parecia ser grande e como não obtive resposta, eu mesmo resolvi desenhar a placa”. Isso me trouxe lembranças da época da CBI95, quando eu ralava gastando sola atrás de uma e não conseguia. Solução: eu mesmo fiz. Peço desculpas ao Victor pelo meu sumiço, mas tudo bem. Ruim seria o pessoal ficar com seus micros limitados no uso ou parados só porque quem produzia uma interface está sumido do mapa. De qualquer forma, se ele tivesse conseguido me encontrar, o mais provável é que eu iria passar a bola para ele.

Tudo isso já fazem alguns anos, mas quem me garante que hoje ou amanhã alguém não irá ressuscitar uma dessas interfaces de novo?

A IDS128 – A INTERFACE DE DRIVE ESQUECIDA

Estamos em abril de 2025 e eu descobri que houve uma outra interface de drive produzida pela Synchron que estava esquecida por mim até hoje, a IDS128 (ou Beta128BR). Poucos sabiam da existência dela. Até que, dia desses, visitando a página do Victor Trucco , me deparei com um título: “BETA 128 ‘PLUS’”. Então dei uma olhada, mas sem qualquer pretenção. E fiquei agradavelmente surpreso quando, logo nas primeiras linhas do texto, eu li: “Esta interface [a IDS 128 Plus] eu montei em agosto de 2009. Nessa época o amigo Marcus Garrett tinha negociado um protótipo de uma Beta 128 [a IDS128] que o Jorge Braga tinha montado no método conhecido como ‘wire wrap’”. Quase cai de costas, porque eu havia me esquecido completamente dessa interface. Lá no site do Victor Trucco tem várias fotos dela, a qual produzi uma única peça por encomenda do Garrett. Foi da junção da IDS128 com o emulador de drive, numa única placa, que deu origem a IDS 128 Plus do Victor, mas parece que não está mais à venda. Possivelmente porque há melhores soluções atualmente para o armazenamento externo de dados no TK90X.

FIGURA 16

IDS128, a interface esquecida. Compatível com a Beta128, provavelmente clone da Doska Radica, conforme o Relatório Beta 128 que acompanhou o produto. Este relatório detalha o funcionamento da interface. Junto com ela acompanhava também os esquemas elétricos, mas não foram recuperados. Provavelmente o Garrett a encomendou no 4º Encontro do Clube TK90X, de 2007.

(Foto: Victor Trucco)

CONCLUSÃO

Aqui estamos depois de uma longa jornada na minha história nesse mundo TK. A saga continua e contando. E até agora, 35 anos de diversão, amizades, aprendizagem, acertos e erros. Procurei dar o meu melhor para compartilhar a aventura com o maior número possível de pessoas. Ainda bem que, onde eu fui limitado, outros foram capazes de cobrir as lacunas que fui deixando pelo caminho. Principalmente a turma da nova geração que brilha muito mais, como deve ser, porque na ordem do universo é costume o novo superar o velho. Então, posso eleger dentre essa plêiade, um ícone que a representou com destaque. Eleger e, ao mesmo tempo, prestar homenagens e expressar admiração ao Fábio Belavenuto que nos deixou e foi para outros projetos incríveis em outros planos. Infelizmente não cheguei a conhecê-lo em pessoa, mas vi as grandes realizações dele no mundo dos computadores clássicos e, principalmente, no que se refere ao TK90X. Continuaremos por aqui, aprendendo, nos encontrando, fortalecendo os laços de amizade, descobrindo outras. Temos uma boa desculpa, digo, razão: É tudo em prol desse clássico notável, o TK90X e de seus muitos irmãos da mesma linhagem e (porque não?) de todas as outras.

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